terça-feira, 17 de janeiro de 2012

O verdadeiro gigante Adamastor

*Texto de Roberto Azambuja, repórter de ZeroHora.com e colaborador do Cotidianunca.

Nessa semana que passou, voltei a pensar em um assunto que já havia saído da minha lista de preocupações há pelo menos quatro anos. Na segunda-feira saía do trabalho, por volta das 7h30, quando me deparei com um aglomerado de jovens atônitos, alguns acompanhados pelos pais, outros não, em frente a um colégio. E lembrei do ritual massacrante pelo qual a maioria dos adolescentes já passou ou ainda vai passar: a preparação para o Vestibular. Nesse caso, o da UFRGS.

Atravessei aquela pequena multidão me achando muito superior àqueles jovens com cara de assustados, afinal, já sou formado e poderia esnobá-los do alto da minha suposta superioridade. Pensava: “nossa, esse monte de gente tentando mostrar confiança e tranquilidade para seu concorrente e não sabem nem disfarçar o nervosismo”. Foi aí que caí na real.

Na minha época de vestibulando pensava a mesma coisa. Chegava no local da prova e começava a observar os outros, como que tentando eliminá-los antes mesmo de sentar em frente às classes sujas e mal cuidadas do ensino público gaúcho. Isso era muito fácil de fazer: um roendo as unhas, outro roendo a tampinha da garrafa de água, outro roendo o vestido da mãe, outro espumando pela boca, outra contando orgulhosa que tinha “bebido muito na noite” e achando lindo que iria fazer a prova “virada”. A vaga era minha! Só esquecia de prestar atenção na pontinha do meu pé batendo involuntária e freneticamente sobre o solo...

Por isso tenho que voltar a março de 2005, quando eu, um guri de 17 anos do Interior, deixava os meus pais chorando na confortável sala da minha casa para realizar o sonho de todo jovem “colono”: desbravar a Capital, sozinho ou com um companheiro de apartamento. Iria passar o ano estudando em um cursinho pré-vestibular para tentar a vaga na arrepiante UFRGS.

E então começa o martírio. Conteúdos que eu nunca tinha visto na vida, de todas as matérias, ao mesmo tempo explodindo na minha cabeça. De repente, em menos de meio ano, descubro que tudo que pensava sobre morar sozinho e ter apenas a obrigação de estudar para uma prova e passar era muito mais complexo.

Espelhos côncavos e convexos, MRU, MRUV, empuxo, trigonometria, geometria e o escambal. Estresse, estresse e mais estresse. A única certeza que eu tinha ao final do ano era a de que não passaria no Vestibular. Não estava preparado o suficiente, apesar das dicas, das gambiarras e tudo mais que os professores tentavam ensinar para facilitar a compreensão.

“Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá. Seno a cosseno b, seno b cosseno a...”

Outra: “E agora minha gente, de dilatação eu vou falar. Três maneiras diferentes, do sólido dilatar. L alfa delta T, ôôô. S beta delta T, ôôô. E é V gama delta T, ôôô. Alfa por 1, beta por 2, gama por 3 e acabou!”.

Por só lembrar dessas musiquinhas, obviamente, não passei. Em 2006, de novo. Porém, mais experiente, usei o que tinha aprendido no ano anterior e as novidades de um cursinho diferente para fazer um baita vestibular no início de 2007! Após os dias de prova, não queria corrigir as minhas, pois sabia que tinha muitas chances de passar. Contudo, de tanto que um amigo incomodou, decidi conferir.

Por causa de uma matéria, que era a que mais sabia, descobri que minhas chances tinham diminuído. Mas restava a redação. Fomos para a praia.

Em um dia de muito sol, descansava de tarde em casa quando meu pai chegou e me chamou no quarto. A lista tinha saído e eu não havia passado. Chorei. Chorei como nunca tinha feito em toda a minha vida. Por apenas cinco pontos e oito posições não tinha entrado. Com certeza, aquela foi a maior decepção de todas. Porque foi um objetivo que não consegui superar. E sei que não haverá segunda chance. Posso fazer outro vestibular, em outra área, e até passar. Mas aquele, para jornalismo, a primeira meta da minha vida, já foi.


Hoje, com 23 anos, formado por uma universidade particular, olho para trás e o sentimento é de orgulho. Porque em nenhum momento daquela época enganei meus pais, que investiram no meu futuro, e nem a mim mesmo. E sei também que a UFRGS não é também aquele bicho-papão que todos pregam. Isso me ajudou a perceber também que a vida não precisa ser tão complicada e sofrida.

Entendi também que passar no Vestibular trata-se de naquele dia, naquele momento, caírem os conteúdos que você mais se preparou. De nada adianta decorar fórmulas e teorias, seguir à risca a lavagem cerebral dos cursinhos. Faça a sua própria rotina, defina sua forma de estudo. Faça por si mesmo, não tente copiar os outros.

Mas, acima de tudo, não abra mão de fazer as coisas que gosta. Não se prenda pela UFRGS ou por qualquer outra universidade. O caminho da felicidade profissional pode ser bem diferente daquele que lhe impuseram no primeiro dia de aula do cursinho. O gigante Adamastor está dentro de nós e não em um pedaço de papel onde passamos boa parte de quatro dias de janeiro pintando bolinhas.