O personagem da vez do blog Cotidianunca segue a tendência: pessoas que passam despercebidas pelo nosso dia-a-dia.
José Carlos Pereira da Silva, nascido em Porto Alegre em 1958, é vigia de rua. Zela por casas, carros e pessoas que mal tem contato, mesmo com 11 anos de trabalho no mesmo local. Não interessa, ele simplesmente cumpre o seu dever: proteger. Seus olhos estão sempre atentos durante as 12h por dia que trabalha ao movimento no seu redor, mesmo às 15h de uma tarde quente.
O dia começou as 5h da manhã para Seu Zé. Acordou para tomar seu café da manhã, pegar sua marmita e rumar, a pé, para sua guarita. Passa por lombas e ruma um caminho cansativo. Seu ponto de partida é a Vila Bom Jesus, na Zona leste de Porto Alegre, onde mora e vive com sua esposa e duas filhas. Além delas, há também o primogênito. O pai de família de 52 anos tem filhos de 32, 25 e 21 anos, e todos trabalham. As filhas, mais novas, compartilham do mesmo emprego: atendentes nas bombonieres dos cinemas dos shoppings Bourbon Country e Moinhos. Ajudam o pai na renda da casa; O salário de 1150 reais ainda não está no padrão que Zé gostaria.
Apesar de não reclamar, o salário ainda é pouco. Zé diz que não passa dificuldades, mas que não sobre nada para guardar e economizar. Os 300, talvez 400 reais que ficam em mãos ao final do mês são guardados. Mas por outro propósito: a ‘patroa’ do vigia é diabética, e emergências podem acontecer. Por isso, volta e meia precisa gastar um pouco mais ao final dos 30 dias, como em outubro, quando precisou comprar uma injeção que custou 100 reais a dose. Mas Zé não reclama.
Vive a sua vida, mas gostaria de realizar um sonho. Seu Zé ama carros, e queria ter a chance de comprar um Fusca, uma Brasília, um Fiat 147 para nos “sábados levar a patroa para passear”. Além disso, seria importante ter o veículo para levar a mulher ao médico em situações de emergência. É um lamento, mas Zé não reclama.
Nem mesmo de quando moradores descontam nele situações que os incomodam, mas que nada tem a ver com Seu Zé, como o cortador de grama do vizinho, ele reclama. Prefere lembrar coisas engraçadas que viveu, como quando avisa para os casais que querem usar a rua como local para namorar. São tantos que estacionam com segundas intenções que Zé perdeu a conta. Mas se diverte. Uma ocasião, esperou que o casal se despisse para ir lá e avisar que o local não era adequado: “Cara, assaltaram um casal aqui, semana passada” diz para o motorista ao bater no vidro. Claro, apenas uma tripudiada para fazer com que os saidinhos arranjem um lugar mais privado para realizar seus desejos.
Com sua experiência trabalhando de noite, Zé sabe o que fazer em situações mais complicadas. Sua arma é o telefone celular, que entra em contato rápido com o posto da Brigada Militar a 5 minutos da rua em que trabalha. Além disso, conta com dois cassetetes para proteção própria. Na verdade, sua maior proteção é a vestimenta. Quando trabalha, Zé por vezes aborda ‘vagabundos’, como ele mesmo define, que moram no mesmo local que ele. Mas após o expediente, de chapéu, bermuda e camiseta, já na Bom Jesus, não o reconhecem.
Seu Zé é um guerreiro, um lutador que vive normalmente. Que vive o dia a dia. Muitas vezes não recebe a atenção e o respeito devidos. Mas dorme tranquilamente com a certeza de que cumpre seu dever: proteger.
Valorização do próximo sempre...não importa a profissão, religião ou cultura!
ResponderExcluirmuito bom.... seu zé sempre protege....
ResponderExcluiro meu pai é um guerreiro,um heroí ...
ResponderExcluirte amo...