segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O ponto final: TCC, temor e a vida


Era primeiro ou segundo dia de aula quando escutei falar sobre isso pela primeira vez. Tava tudo tão longe que o aceno de mão debochado e as críticas foram evidentes quando se tocou no assunto. Mas a verdade é que o TCC desde então virou um “medo” para todos os estudantes do ensino superior. Cinquenta páginas que pareciam ser a coisa mais difícil do mundo de se parir.

Não me leve a mal. Não digo que é fácil concluir o trabalho, ou que não seja necessário um sofrimento, com sacrifícios do aluno. Noites em claro, leituras complicadas, preocupação. Às vezes uma pane frente a uma página em branco do Word. Insatisfação com o que as teclas criam(“porra, não era isso que eu queria dizer, que merda de teclado”). Tudo isso acontece, invariavelmente. Precisa acontecer, é um trabalho longo e árduo.

Há que se entender a aflição dos escribas. O ponto final da conclusão da monografia será o ponto final de uma era de alguns anos. Uma vida, ou um início de vida, que deixa cicatrizes profundas no caráter, na personalidade e nas relações do restante da vida. Deu pra entender? Uma nova vida dentro da vida. Enfim. O que fica é que o TCC significa muito mais que uma formatura. Significa o fim de uma etapa.

Então, tccianos, quando clicarem no quinto botão da segunda linha do teclado, sintam-se orgulhosos. Uma etapa de estudos sobre sua profissão se encerra neste momento. Uma etapa de sua vida se fecha junto com o “você deseja salvar as alterações neste arquivo?”. Vocês cresceram.

sábado, 29 de outubro de 2011

Não é a toga


Uma das roupas mais bizarras e desnecessárias já criadas pelo ser humano é vestida, semestralmente, por formandos ao redor do mundo. O babeiro branco, sobreposto a uma espécie de saiote preto que cobre o corpo inteiro, além da famosa gravatinha borboleta avulsa, compõe o traje. Eu, particularmente, sempre achei engraçado ou, no mínimo, peculiar, encontrar pessoas vestidas dessa maneira. Mas sempre reparei que elas não se importavam muito com isso. Achava estranho. Desde hoje, compreendo.

A verdade é que tudo isso vai muito além. Considerava que a tradição de uma formatura é o que sustentava todo o cerimonial. A partir do momento em que participei de uma simples sessão de fotos para o convite dos formandos, mudei completamente de perspectiva. Milhares de momentos brotam instantaneamente na mente. Foram cinco anos. E como aconteceram coisas nesse meio tempo. Talvez, mais coisas do que nos outros dezessete anos. Conheci pessoas diferentes, completamente diferentes, parecidas. Independente da relação que estabeleci com cada uma, convivi com elas e, mesmo que muitas vezes involuntariamente, aprendi muito com elas. E hoje, parte dessas pessoas estava lá.

As vivências de uma faculdade ultrapassam o limite dos estudos e disciplinas pendentes. É a partir desses momentos que o indivíduo cria ou consolida a sua personalidade, apresentando a mesma para a sociedade. Via estágio, via colegas, via professores, via apresentações, via palestras, via mundo real. A responsabilidade dos estudos pode até permanecer durante um tempo. Entretanto, paralelo ao amadurecimento, o dever começa a se transformar. A proximidade com o término do curso modifica completamente as prioridades e pensamentos. Agora, a grande meta não é mais a prova final ou a apresentação bem feita. Precisamos definir o que queremos ser e fazer pelo resto de nossas vidas. E será que precisamos?

Eu, sinceramente, ainda não sei. Tenho vinte e dois anos. Quantas coisas ainda podem acontecer? A vivência na faculdade me ensinou algo muito maior do que os valores e caminhos de uma profissão específica. Hoje, eu sei quem sou. Algo que não sabia quando pisei, pela primeira vez, em uma sala de graduação. Ao longo do caminho, professores e amigos fizeram com que eu acreditasse em minha capacidade. Isso não é puxa saquismo. Detesto pessoas que precisam disso para conquistar alguma coisa, se é que conquistam. Estou sendo apenas sincero.

Não faço ideia da relação que pode ser estabelecida entre as mudanças ocorridas comigo ao longo desses anos e o traje do século XVI que precisei utilizar durante quatro horas, de manhã cedo. Acredito que seja pelo fato de que, se eu tivesse vestido uma toga antes de entrar na faculdade, provavelmente ficaria envergonhado pelo resto da vida. Hoje, liguei um “foda-se”, ri da minha própria cara e até limpei a boca com o babeiro.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Elevadores


Acredito que seja uma das situações mais desconfortáveis que o indivíduo pode passar no decorrer do seu dia. Eu, pelo menos, tento evitar ao máximo entrar nesse recinto; ao menos com outras pessoas.

Não tenho medo de ficar preso. Apenas não consigo suportar a ideia de passar um tempo, por menor que seja, ao lado de uma pessoa, obrigatoriamente. Ela não tem nada a dizer para você. A recíproca, definitivamente, é verdadeira. Entretanto, para não parecer mal educado, ao menos quando eu estou no elevador, as pessoas começam a puxar conversa.

- Olá garoto!

- Oi.

- E essa chuva?

- Ruim né?

- Pois é.

Não tenho nada contra essas pequenas conversas. O sujeito, provavelmente de meia idade, simplesmente quer ser simpático. Mesmo assim, como não haverá um segundo tópico, a conversa dura cinco segundos. E o que fazemos no restante do tempo?

1) Olhamos incessantemente para a porta de saída do elevador, contando quantos andares faltam.

2) Se o elevador for de última geração, olhamos para a tela que vai mostrando em que andar você se encontra.

3) Lemos, atentamente, o recado do síndico (é a única forma de alguém se interessar pelos recados do síndico)

4) Mexemos em nossas coisas, fingindo procurar algo.

5) Fingimos que estamos enviando uma mensagem, sendo que os celulares não pegam em elevadores.

Qualquer uma das alternativas é tosca e não faz o menor sentido. Todos sabem que você não tem interesse em nada do que está fazendo. Mas acho que nada pode ser pior do que aquele silêncio agonizante, pós conversa completamente inútil. Na verdade, talvez uma única coisa: claustrofobia. Pobres claustrofóbicos...

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

O Gre-Nal que apequenou Porto Alegre

O início da tarde desta quinta-feira reservou uma notícia ruim para o povo gaúcho, para aqueles que gostam de esporte e futebol em especial. Não é a tragédia que estão pintando, mas é um desfalque grande na Copa do Mundo de 2014. Sim. Na Copa. Desde que foi anunciado que a competição seria realizada no Brasil, sabíamos que Porto Alegre não teria relevância, praticamente, no cenário nacional.

A Fifa divulgou que Porto Alegre fica com cinco jogos, quatro na fase de grupos e uma oitava de final. Ok, nada mais do que o esperado. O que pesou foi ficarmos sem a Copa das Confederações. Isso sim era esperado, isso sim fazia parte do pacote. Porque é isso, seria um pacote. A competição mais o Mundial trariam bastante gente ao país, se não torcedores, ao menos mídia, delegações, dirigentes, e essas pessoas consomem. Se hospedam. Gastam, o que é uma das justificativas para a realização de eventos dessa grandiosidade.

Sem essa primeira parte do “pacote”, o questionamento que fica é em relação aos investimentos feitos na cidade. Todos importantes, como o metrô ou a duplicação da Av. Beira-Rio. Todos necessários, claro, mas que com certeza contavam com um retorno que talvez não aconteça agora. O consumo em 2014 talvez pagaria, ao menos em parte, com impostos, o montante de recurso investidos na cidade. Todos sabemos que a situação financeira do RS não é boa, e que o investimento sem o retorno pode acabar deixando o cofre mais raspado ainda. É um medo que, espero, não se concretize.

Agora chegando ao ponto que queria: tudo isso foi direcionado devido a um Gre-Nal, um clássico burro. Foi a rivalidade doentia do Rio Grande do Sul que tirou Porto Alegre da Copa das Confederações. Concordo com uma declaração dada por Eduardo Antonini, presidente da Grêmio Empreendimentos, a Rádio Bandeirantes.

Para o dirigente, erraram os gestores públicos que não trabalharam com um ‘plano B’. Ele citou São Paulo, o qual não é o melhor exemplo, já que Lula fez pressão para sair o estádio do Corinthians e Ricardo Teixeira não engole o São Paulo, dono do Morumbi, que iria para a Copa.

Se a administração pública do RS, seja prefeito, governador ou deputados queria realmente o ‘pacote completo’, deveria ter trabalhado com mais de uma opção. Claro, ninguém imaginava que o Beira-Rio não estaria com as obras em andamento quase no fim de 2011. Mas não é o Inter o culpado por prejudicar Porto Alegre. Ao menos não completamente. Cuidou dos seus interesses. Os políticos, esses sim, negligenciaram os interesses da cidade e deixaram escorrer pelas mãos uma chance.

Senão vejamos. O Inter planeja um contrato longo, como o do Grêmio com a OAS, e quer se resguardar. Perfeito. Não é o clube gaúcho que precisa cuidar dos interesses do Estado, para isso serve a esfera pública. São governantes, são deputados, é o prefeito quem precisam fazer isso.

E só não foi feito por uma rivalidade. Os políticos que se apegaram de mais ao Beira-Rio, talvez por serem colorados, talvez por acreditar no bordão “Arena fantasma”. Depois de iniciadas as obras do novo estádio gremista, era só negociar com a Fifa e modificar a sede. O Inter ia ficar com cara de tacho, iria fazer um vexame, mas o Rio Grande do Sul não sairia prejudicado.

Ficamos no mesmo parâmetro que Bloemfontein, Pretória, Rustenberg. Péssimo, cidades quase inexistentes na África do Sul. É verdade que não temos apelo turístico perto das praias maravilhosas do Nordeste, mas o Gre-Nal apequenou Porto Alegre.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Conquistas e derrotas

Opostas e, ao mesmo tempo, complementares, as duas palavras que compõe o título desse texto praticamente tomam conta da vida de um ser humano. O mais engraçado é que, ao atingir uma conquista, involuntariamente você se aproxima muitos quilômetros da derrota. E isso pode ser justificado por um simples fato: o ser humano nunca está satisfeito.

Realidade perigosa. Que assume um paradoxo gigantesco. Que transforma a vida de um indivíduo em uma montanha russa. Você pode pensar nisso de uma forma positiva, como, por exemplo, o fato do sujeito sempre almejar a superação, a melhora. Não é verdade. Dificilmente valorizamos o que temos. Sempre inventamos as mais diversas desculpas que possam tirar os méritos das nossas conquistas. Finalmente, encontramos o que vivemos procurando: a derrota.

O mais puro elogio apresenta prazo de validade curto ao deparar-se com a mais ridícula crítica. Milhares de êxitos não conseguem apagar uma única derrota. Por quê? É muito complicado entender a cabeça de um animal considerado racional. É verdade que o conceito foi criado por ele próprio, mas isso não falsifica a afirmativa. O que vem de baixo não me atinge? Atinge, e atinge em cheio. Você nunca parou para pensar que muitos almejam o seu lugar? Independente do lugar em que estamos pensando. Social, cultural, profissional, emocional.

E não adianta pensar que a pessoa falou aquilo para o seu bem. Você conhece quem quer o seu bem e, com certeza, a crítica desses indivíduos não são capazes de abalar. A inveja é uma realidade. Defendo a humildade, com valorização própria. Caso você nunca tenha sido criticado, o que está esperando para começar a fazer algo relevante na sua vida?

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

O Metrô que nasce morto

Nesta sexta-feira Porto Alegre teve uma presença ilustre. A presidente da República, Dilma Houseff, esteve na capital d’O Barrista para anunciar um investimento que a cidade espera há muito tempo, mas que não saía nunca do papel. O metrô de Porto Alegre finalmente vai sair do campo dos projetos e tornar-se uma alternativa de transporte público.

O blog Cotidianunca louva a iniciativa dos governos federal, estadual e municipal. Fazia tempo que a desunião entre esses “poderes” deixava a cidade sem um investimento grandioso como esse. Mas a obra também abre espaço para questionamentos.

Todas as áreas que a fase 1 do metrô atinge são problemáticas em relação ao trânsito nos dias de hoje. O que faz pensar é o tempo de obra. Serão de quatro a cinco anos construindo, cavando, armando uma rede nem tão complicada(são três linhas praticamente retas) assim sob o solo. Não li nada a respeito do que foi feito de estudo para as áreas que CRESCERÃO nesses quatro anos. Evidente que o Centro de Porto Alegre será sempre o problema, e obviamente é justo iniciar-se por aí uma das maiores mudanças na cidade.


O que me incomoda é que, vendo já adiante, a proposta de fase 2, e pensando que ficará pronta lá por 2020, talvez mais, chego a conclusão que nosso metrô já nasce defasado. Não que não seja importante, mas já nasce atrasado, já nasce atingindo um número de pessoas menor do que deveria. Porque até lá, Porto Alegre terá crescido, terá mais gente, e parece que isso não foi pensado.

Cada vez mais o refúgio na cidade se torna os extremos: além da região metropolitana, bairros como o Jardim Planalto, ou lugares mais afastados na Zona Sul. Aceito os argumentos de que há de se pensar primeiro nas áreas mais problemáticas, em termos de congestionamentos e mobilidade. E até foram atingidas. Só que o pensamento no futuro parece não existir. Parece que traçaram uma linha por Porto Alegre e ali passará o metrô.

Em todas as outras cidades do mundo, o subterrâneo é o principal transporte, chegando até áreas de moradias tanto quanto às comerciais. Aqui, vamos precisar, e muito, que o projeto dos BRTs (Bus Rapid Transit). Porque as áreas comerciais estarão cobertas pelos trens subterrâneos. Mas as áreas residenciais ainda precisam esperar a fase 3, 4...

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

A volta do filho


Escrevi esse texto em julho, após encontrar o pai de Gilad shalit, em Jerusalém...

De todas as cores, classes sociais e crenças. Com exceção de algumas linhas ortodoxas, todo cidadão israelense, entre 18 e 21 anos (homem), e 18 20 anos (mulher), deve participar do exército.

Esse fato torna compreensível um outro fato: Israel apresenta um dos melhores exércitos do mundo. Entretanto, a realidade traz também uma outra situação,pouco divulgada por aí. cada família israelense sofrerá, de uma forma ou de outra, um aperto gigante no coração, no mínimo, durante três anos de sua existência.

Dentro desse contexto, surge o nome de Gilad Shalit. Comoção nacional, o jovem que, desde 2006,aos 18 anos, foi capturado pelo grupo terrorista Hamas, tem a sua foto estampada por todo o Estado de Israel. Uma situação terrível, por um simples fato: a solução para o problema é muito complicada. Ao mesmo tempo que se trata de um ser humano, de um israelense que representa uma realidade de todas as outras famílias com filhos no exército, o garoto tornou-se uma valiosa moeda de troca para o Hamas. Eles libertarão Gilad se, em troca, Israel libertar mil palestinos, a maioria com "sangue nas mãos".

Se os israelenses não se protegerem, quem os protegerão? A continuidade do exército é vital para a consolidação de uma pátria com apenas 63 anos de independência. E eles tentam lidar com essa realidade da melhor forma possível. A imensa maioria tem orgulho em prestar o serviço militar. Muitos celebram a chegada do Shabat (Dia do Descanso para os judeus) em conjunto com o povo, no Muro das Lamentações. Eles não escolheram passar por isso. Precisam passar por isso. Sobre Shalit, a esperança é a última que morre. Em Israel, o menino ganhou milhões de pais e mães, aflitos para que o seu filho volte logo para casa...

Alguns meses depois, a remota esperança transformou-se em realidade. Parabéns ao governo israelense, por entender que, às vezes, os números não justificam os atos. Gilad Shalit é apenas um, mas representa milhões...

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Um pouco menos de ceticismo sobre a Brigada Militar

A vida é feita de experiências, tanto boas quanto ruins. Não que eu quisesse, mas a noite desta terça me reservou uma nova experiência. Uma daquelas que fica marcada, mas que também deixa pontos positivos. Depois de estacionar bem no final da Maryland, esquina com a Antonio Parreiras, eu e minha namorada saíamos do carro, por volta das 21h, quando dois homens nos abordaram. Surgiram do breu da esquina, sem que tivéssemos visto.

Talvez desatenção, talvez aquilo que tenha chamado atenção neste texto. Pediram a chave do carro, nos colocaram lado a lado e roubaram bolsa com carteira, celular e maquina fotográfica da minha namorada e minha carteira e meu celular. Entraram no veículo e se foram, nos deixando atônitos na calçada.

Estávamos os dois indo a aniversários no Mercado do Chopp, a uns 100 metros do ocorrido. Ela chorando, eu aliviado por nada maior ter acontecido, fomos para o bar. Pedimos um telefone, e menos de 10 minutos depois já havíamos acionado a Brigada Militar pelo 190. Com os dados do carro, a informação do roubo já estava no alerta das viaturas que circulavam na capital.

Enquanto isso, o contato com o seguro já havia sido feito. Estávamos nós na 13ª DP, fazendo o Boletim de Ocorrência, quando nos avisam que o carro havia sido resgatado, bem como todos os nossos pertences. Os dois ladrões estavam armados (o que me deixou mais certo ainda que não ter reagido foi o correto) e fugiram. Ou seja, fica ainda a dica para a galera estar atenta na noite de Porto Alegre.

Rumamos então pra 8ª DP, na Av. dos Industriários, bem mais aliviados. O susto passou, e recuperamos nossas coisas. Ainda que sejam isso, só COISAS, não é justo que alguém as tome de nós depois de um esforço feito para que as compremos.

O que fica de mais incrível na história é a sorte/competência (a velha frase, "quanto mais eu trabalho, mais sorte eu tenho", de Thomas Jefferson) da polícia de Porto Alegre. Eu, no momento em que saíram com o meu veículo, tinha certeza que nunca mais o veria. Era uma convicção: bom, agora a polícia não vai os achar, ou não vai querer achar. Diante dos muitos problemas que a Brigada Militar tem, saí menos cético em relação ao sistema.

Destaco também os dois soldados que estavam com o veículo, ambos tiveram tratamento exemplar conosco. Um chamava-se Ayub, o outro, infelizmente, não perguntei o nome. Falha, mas o reconhecimento dele está também aqui feito.

Tudo foi recuperado, meu carro estava em estado perfeito – há sempre a história corrente de que se os ladrões não o danificaram, a polícia pode fazer – e tudo foi recuperado, inclusive o dinheiro dentro das duas carteiras. Só não se pode ignorar o susto e o alerta: todo cuidado é pouco nas ruas de Porto Alegre. Algo foi feito. Mas há muito mais a ser.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Entre o digital e o real

Eu não gosto de bater muito na mesma tecla. Talvez eu até goste, mas nesse caso, são os fatos que me obrigam a falar novamente sobre esse assunto. A sensibilização gerada pelas redes sociais é algo impressionante. Os céticos podem recriminar o que vou dizer, afirmando que se trata mais de uma forma do indivíduo aparecer, afinal, quem não valoriza as atitudes nobres e politicamente corretas?

E quem se importa? Independente do motivo, as pessoas deixaram de se abster. Elas estão cada dia mais conscientes e crentes de que podem fazer a diferença no mundo em que vivem. Um menino estava desaparecido há mais de dois meses. A mãe, representante legal do garoto, estava desesperada. O pai, desequilibrado emocionalmente, havia buscado ele para passear, conforme a lei permite, e nunca mais voltou.

Policiais e até detetives estiveram envolvidos no caso. A situação se agravava conforme os dias se passavam. Não havia uma pista a respeito do paradeiro da criança. Até que um dia, inconformado com a estagnação na qual o caso se encontrava, um dos familiares resolveu criar um evento no Facebook, com a foto do menino. A comoção atingiu proporções inimagináveis. Manifestações de solidariedade brotavam de todas as partes do Brasil. A maioria delas de pessoas sem vínculo algum com qualquer membro envolvido no caso. Em apenas um dia, mais de 1500 pessoas “confirmaram presença” no evento.

Coincidência ou não, dois dias depois, o título e texto iniciais do anúncio desesperador deram lugar ao agradecimento familiar sem palavras para descrever a felicidade. A foto também foi modificada. Agora, o garoto estava em um aeroporto, abraçando a sua mãe. E dizem que a internet torna as pessoas mais frias...

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Não cite Steve Jobs, seja Steve Jobs

Stay Hungry,stay foolish...Perca (ou ganhe) quinze minutos da sua vida assistindo a esse vídeo.

Do que PoA precisa? Eu digo luz.

Um pensamento antigo e uma campanha de um conhecido talentosíssimo, o publicitário Luciano Braga, me instigaram a escrever sobre o assunto. A ação do Shoot the Shit, que ainda tem Gabriel Gomes e Giovani Groff, pergunta para a população portoalegrense o que a cidade precisa.

Já estive em dois lugares do mundo que são considerados por mim dois dos melhores lugares para se viver e que poderiam levar o rótulo de ‘cosmopolita’. Barcelona e Cidade do Cabo, duas cidades litorâneas e portuárias, esta segunda característica compartilhada por Porto Alegre. Duas cidades que tem intensa vida, mesmo com a escuridão reinando. Em Barcelona, as Ramblas se enchem de jovens para aproveitarem a noite movimentada. Na Cidade do Cabo, o mesmo. Ambas tinham pessoas na rua andando até altas horas, mesmo no centro, geralmente os lugares perigosos da maioria das cidades brasileiras.

Há diversas coisas que tememos quando somos crianças. A gama é infindável e depende de cada indivíduo. Mas o que acontece com quase todas: o pedido para que na hora de adormecer, alguma luz, nem que seja mínima, um facho entrando pela porta, ilumine o quarto. Ninguém gosta da escuridão. Ninguém fica confortável no breu. Dizem que temos crianças dentro de nós mesmo quando somos os adultos que trabalham e têm preocupações. Pois essa criança deve continuar com o medo do escuro.

Pois então, que se iluminem as ruas. Que a prefeitura, o governo do estado, a câmara de vereadores ou a população se mexam. Porto Alegre é escura pós -18h. O inverno gaúcho nos dá muitas coisas boas, nos dá o vinho, nos dá a boa companhia no frio, nos dá uma gama de opções de passeios pelo interior, mas nos tira o sol muito cedo. É só comparar um dia do gélido inverno, ou mesmo da primavera, com o horário de verão às 19h30, que será latente a quantidade de pessoas caminhando, praticando esportes, convivendo com a cidade.

A iluminação da cidade nos tiraria, talvez, um pouco do receio de insegurança que temos. Claro que há a insegurança de fato, mas muito da nossa ausência nas ruas ao cair da noite pode se dar porque imaginamos que dos becos escuros, das esquinas sem luz, das ruas no breu sairá alguém para nos fazer algum mal. Com o caminho visível, a barreira do medo pode desabar. E nós tomemos às ruas da escuridão, dona hoje.

Não são luzes que vão resolver o problema portoalegrense. Falta segurança, falta infraestrutura, falta transporte, falta o projeto do Cais sair do papel, falta um monte de coisa. Mas eles podem resolver o nosso problema; poderia diminuir a nossa sensação de insegurança. A consequência disso seria a Porto Alegre povoada também de noite. Povoada por gente que não teria medo de caminhar e curtir o que Porto Alegre tem de bom.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Atrasado...de novo

O alarme está programado para despertar as sete horas da manhã. Após o apelo para a função “soneca”, responsável por ceder mais cinco minutos de sono, três vezes seguidas, o indivíduo finalmente desperta. Banho e rádio combinam. A consciência e a preocupação com o horário destacam-se em meio a uma mistura de sons e informações.

O café da manhã, se esse nome pode ser utilizado para caracterizar meia dúzia de bolachas e um copo d’água, ainda está sendo digerido quando, faltando seis minutos para o início da aula, o ser chega até a parada de ônibus. A chuva dramatiza ainda mais o cenário. Por sorte, se é que isso pode ser considerado sorte, três minutos depois o ônibus ingressa na parada; lotado. Cálculos invadem a mente. O professor fará a chamada as oito horas e quinze minutos, pontualmente. O trajeto percorrido é de quatorze minutos em um dia de sol. Não vai dar...

Oito e vinte. O horário registrado na roleta em que a carteirinha é passada gera uma nova preocupação. A chamada está perdida. São quatro créditos. Três aulas dessa disciplina, pelos mais diversos motivos, já não foram assistidas. O limite é de quatro faltas. Ninguém quer chegar ao limite no começo de outubro...

Os professores têm tolerância. A falta pode ser discutida. Entretanto, é preciso encontrar a brecha. Um movimento errado pode representar a permanência da letra F ao lado do nome. As instruções para o exercício do dia já foram dadas. O momento parece perfeito. Parece...

- Professor, a chamada já foi feita?

- Foi sim...mas agora estou corrigindo alguns textos. Me procura depois, ok?

Pedir presença uma vez já representa o retrato do desespero. Além de assumir um erro, confirma a irresponsabilidade e a falta de comprometimento. Ainda mais quando é a quarta vez, apenas em outubro. Tentar uma segunda vez, mais tarde, não tem como. Imagina se, novamente, o raciocínio do professor é interrompido? “Aluno – pentelho - atrasado”, com hífen, pois essa será a marca registrada do estudante até o final do ano. Eis que surge uma voz sábia, compreensiva (ou não):

- Gustavo, acabei de te dar presença.

Após uma hora de devaneios, escrevendo este texto, inclusive, o indivíduo pode finalmente começar o seu exercício.