domingo, 17 de outubro de 2010

Sobrevivência através do trabalho

Em condomínios, construções, lavouras e mecânicas, sempre há aquele denominado faz-tudo. O indivíduo que não tem medo de aprender, mas, acima de tudo, precisa trabalhar para sobreviver. Livino Nunes, popularmente conhecido como “Seu Levino”, enquadra-se neste perfil.

Nascido em Passo Fundo, interior do Rio Grande do Sul, começou a trabalhar cedo, aos seis anos, logo após o falecimento de sua mãe, como auxiliar em uma padaria. A necessidade o impediu de receber a oportunidade de estudar. Hoje em dia, sabe apenas assinar o próprio nome. A única lembrança que guarda dessa etapa de sua vida é uma nota de um cruzeiro, recebida em agradecimento a um dos inúmeros serviços que desempenhava na época. Enfrentou a lavoura e a construção de um túnel em Vila Alegre. Sobreviveu por um milagre, por sorte. “Este foi o pior emprego que eu já trabalhei. Perdi muitos colegas de trabalho durante os quatro meses que fiquei por lá. As pedras rolavam, caiam na cabeça dos meus companheiros que, mesmo com a proteção, não resistiam”, arrepia-se até hoje.

Aprendeu a montar geradores de energia elétrica, o que possibilitou que morasse no Rio de Janeiro e em São Paulo, garantindo condições melhores para a sua esposa. Trabalhou detonando explosivos no Paraná, até voltar ao Rio Grande do Sul, mais especificamente a Porto Alegre. “Sempre tive que aprender as minhas funções na prática. Eu descobria o que tinha que fazer mexendo nas coisas, com pouco treinamento e muito esforço”. Empregado por uma construtora, passou a realizar a manutenção de uma obra no bairro Menino Deus. Quando o seu contrato chegou ao fim, o síndico do prédio, já construído, decidiu empregá-lo. Seu Levino finalmente conseguiria, após 46 anos, criar raízes em um local de trabalho.

O sorriso é a sua marca registrada. Sempre feliz da vida, cumprimenta todos os moradores do prédio em que trabalha há 15 anos, pelo nome. Adora conversar sobre futebol. Mais do que isso, vive desafiando a todos com apostas, cujo prêmio varia entre uma garrafa e um engradado de Coca-Cola. “Às vezes, quando tenho problemas que não posso resolver, eu não trago para o serviço. E assim eu vou levando a vida, sempre tranquilo”, ensina.

Apesar de ter perdido o pai, a esposa, um dos irmãos e não ter contato com outros dois irmãos há 30 anos, Livino não reclama da vida. Com bom humor, responde que ainda tem os seus cachorros, uma casinha em Alvorada e um emprego digno. Por isso, não tem do que reclamar. Acredita também que as doações dos moradores, sempre que solicitadas por ele pela mais pura necessidade, fazem dos residentes grandes amigos, praticamente uma segunda família. “Eu me dou bem com todo mundo. O pessoal me ajuda muito. Quando minha esposa faleceu, eu não tinha dinheiro para gastar com o enterro. Os moradores se uniram e me ajudaram a pagar todas as despesas do funeral. Agradeço muito a todos eles”, revela, emocionado.

O grande sonho de Livino corresponde ao restante da sua história de vida: é humilde e honesto. “Meu sonho é chegar à minha aposentadoria. Quando isso acontecer, vou voltar para Passo Fundo, ficar com um dos meus irmãos e as minhas sobrinhas”, projeta.


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