Quem não tem algum parente mais velho, que necessita de cuidados especiais? Com certeza, conforme o tempo passa, a convivência com esses parentes diminui por diversos motivos. O tempo está cada vez mais curto, os compromissos são cada vez mais constantes.
O diálogo torna-se muito complicado. É difícil encarar alguém que já lhe ensinou tanto em um estado, hoje em dia, dependente e, visto por muitos, como irreversível. Este é um dos grandes erros que se pode cometer. Experimente forçar a memória dessas pessoas e tenha uma grande surpresa.
Eu fiz isso. Estava na casa da minha bisa, uma senhora de 98 anos que dificilmente consegue lembrar o meu nome por muito tempo. Após um acidente caseiro, um tropeço, bateu a cabeça e, desde então, apresenta a memória embaralhada. Também não consegue caminhar mais.
Claro que as visitas dos bisnetos trazem muita alegria para ela, que sorri durante todo tempo. Cercada por pessoas das quais não lembra o nome, mas sabe que têm parte importantíssima em sua vida. Não digo que a felicidade nesses momentos é utópica. Não é. Entretanto, para pessoas como a minha bisa, que trabalhou até os 92 anos como contadora, não poder fazer coisa alguma sozinha deve ser horrível.
Normalmente, sento ao lado dela, pergunto como ela está se sentindo e conto como foi o meu dia. Hoje foi diferente. Retirei da minha mochila um livro de pesquisa para a minha monografia que contém palavras em Idishe (língua praticamente extinta que os judeus europeus costumavam falar). Minha bisa, como uma boa judia russa, conhece bem o dialeto.
Comecei a questioná-la sobre o significado das palavras e, para a minha surpresa, ela me respondia, com clareza. Resolvi ousar. Retirei o meu caderno de 50 páginas que utilizo para todas as disciplinas da faculdade e passei a perguntar os significados de frases inteiras, utilizadas no cotidiano. Muitas, ela falava instantaneamente. Eu repetia. Ela corrigia até que eu acertasse. “Ichob dich lib” (eu gosto muito de ti), “Hasheinem dunk” (muito obrigado), “Ich lern jornalism” (eu estudo jornalismo), “Mai numen is Gustavo” (meu nome é Gustavo), “Mochn vet kein acheiguen” (amanhã vai chover). Apenas metade do que aprendi, em apenas 15 minutos.
Esta experiência com certeza possibilita um aprendizado raro. Entretanto, mais do que isso, pode permitir que a vida da minha bisavó faça sentido. E assim, com certeza, funcionará com qualquer idoso do mundo. A memória pode não ser mais a mesma, a fragilidade pode aumentar a cada dia, mas nunca esqueça, trata-se de alguém que já viveu muito mais do que você.
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